Resenhas miúdas: Zonal, Kid Loco e ‘Kankyo Ongaku’

Justin Broadrick e Kevin Martin do Zonal: pressão subterrânea na parceria com a cantora Moor Mother

“Wrecked” – Zonal

Para cada desenho de um pôr do sol e um barquinho, uma pintura de Bosch. Para cada blockbuster desossado, um filme de Jordan Peele. Para cada pop pré-moldado, os sons do Zonal. No eterno ying-yang da arte, em que cada chicletinho parece ser sempre contrabalançado por uma rapadura, o grupo britânico formado por Kevin Martin (The Bug, King Midas Sound) e Justin Broadrick fica nesta última opção, a dura de roer.

Apesar da parceria entre os dois músicos e produtores ter mais de década, rendendo vários projetos, seu debut como Zonal só veio agora. “Wrecked” traz Martin e Bradrick num trem-fantasma, repleto de distorção e espectros dub, acompanhados pela militante cantora, MC e artista plástica norte-americana Moor Mother. São doze faixas – metade com as letras afrofuturistas de Mother, metade instrumental – tão sombrias, tão densas e tão desnorteadoras que deixam arranhões enquanto giram lentamente pelos ouvidos, fazendo o Massive Attack parecer a trilha sonora do The Voice.

——————————————————————————————————————–

Monsier Kid Loco: o ícone da chapação noventista volta com álbum de caimento perfeito

“The rare birds” – Kid Loco

A arqueologia revela que, nos anos 1990, criaturas da noite encerravam seus rituais dançantes e retornavam às suas cavernas urbanas para a prática do chillout, o ato de descontrair acendendo cigarrinhos engraçados e ouvindo CDs – pequenos artefatos metálicos – de mestres da chapação como Kruder & Dorfmeister, Nightmares on Wax e Kid Loco. Décadas depois, a onda dessa turma – pré-historicamente batizada de downtempo – segue batendo bem, como mostra “The rare birds”, o novo álbum de Jean-Yves Prieur, o Kid Loco.

Primeiro lançamento do músico, produtor e DJ francês em oito ano, “The rare birds” não voa tão alto quanto o sublime “A grand love story” (de 1997), mas tem seus próprios encantos. O disco marca a volta de Kid Loco à forma depois de alguns trabalhos menos inspirados, com um punhado de canções macias, elegantemente desenhadas e suavemente chapantes – prove “The boat song”, “Claire” e “Venus Alice in dub” – que parecem a trilha sonora de um romance perdido da Nouvelle Vague. Perfeito para ouvir no sofá às 3 da manhã, matando a larica com um croissant. Afinal, Paris nos pertence.

——————————————————————————————————————–

Haruomi Hosono nos anos 1980: o artista é um dos destaques da coletânea japonesa de ambient

“Kankyo ongaku” – Vários

Convém abrir o olhinho: Kankyo ongaku não é uma pessoa e sim a expressão japonesa para “música ambiente”. É também o título, mais do que adequado, para a compilação lançada pelo selo norte-americano Light In The Attic com um apanhado da produção feita naquele país nos anos 1980. Como nada do que vem do Japão é muito comum, boa parte das músicas do disco faz jus ao termo “musique d’ameublement” (grosso modo, “música para móveis” ou “música para mobílias”), de Erik Satie, bisavô do gênero popularizado por Brian Eno nos anos 1970.

Com o subtítulo “Japanese ambient, environmental & new age music 1980-1990”, o disco traz composições que nasceram a partir de encomendas de grandes corporações – como Muji, Seiko e Sanyo (hoje, Panasonic), entre outras – para comerciais de televisão e outras formas de propaganda durante a bolha econômica que envolveu o país naquela década. Esse inusitado mecenato deu asas a um grupo de artistas – entre eles, Haruomi Hosono, parceiro de Sakamoto na Yellow Magic Orchestra, e Joe Hisaishi, compositor de trilhas sonoras para o Studio Ghibli – para que pudessem traduzir, à sua maneira, os conceitos de Eno. Os resultados são variados, como se esperaria de composições distintas, mas trazem em comum, além do uso minimalista de sintetizadores, uma profunda delicadeza e uma sonoridade cristalina retratadas em faixas como “Glass chattering”, de Yoshio Ojima, “Praying for mother Earth pt 1”, de Akira Ito, e “Blink”, de Hiroshi Yoshimura. Um chuá.

Fotos de divulgação

Kid Loco: foto de Camille Verrier