A emoção congelada nos cristais musicais de Ryuichi Sakamoto e Alva Noto

Sakamoto e Noto durante a gravação de ‘Glass’, realizada numa construção do arquiteto Phillip Johnson, nos EUA

É difícil curtir o silêncio quando há tanques nas ruas. Mas é preciso contrabalançar guerra e paz, nem que a trégua chegue apenas pelos ouvidos. Esse é o caminho de “Glass”, novo trabalho que reúne, mais uma vez, os parceiros de longa data Ryuichi Sakamoto e Alva Noto (autores da trilha-sonora do filme “O regresso”, de Alejandro Iñárritu, de 2015). Descrever o som do álbum como “cristalino” não é mero jogo de palavras, já que sua única faixa foi gravada durante uma sessão de improviso da dupla na Glass House, casa construída pelo arquiteto norte-americano Phillip Johnson em New Canaan, Connecticut, em 1949 e transformada em museu em 2007, dois anos depois da morte do seu criador, aos 98 anos. Marco do design contemporâneo, ela tem suas elegantes formas minimalistas calcadas em vidro e aço, numa integração perfeita com a floresta ao seu redor.

 

 

Para a performance – realizada há dois anos e só lançada agora -, o local foi especialmente preparado. Microfones foram colocados em todos os cantos e tigelas de cristal de quartzo (muito usadas em meditação e ioga) foram penduradas no teto. Dessa forma, a casa foi transformada em um instrumento, juntando-se aos teclados do mestre japonês e aos efeitos sonoros do compositor alemão, dando um sentido quase literal ao rótulo “música ambiente”. Ao longo dos 37 minutos da faixa-título, melhor aproveitada se ouvida com fones de ouvido, há escassez de ritmo e melodia, e predomínio das delicadas e complexas texturas e ambiências criadas pela dupla, que ecoam e reverberam pela mágica construção de Johnson. Estranhamente meditativa, “Glass” é um drone musical, capaz de nos fazer levitar, por alguns minutos, da cidade que já foi azul da cor do mar e agora está camuflada de verde oliva. Cuidado para não quebrar nada na viagem.

 

(Alto, foto de Taylor Deupree, acima, reprodução)