Sem muitas palavras, o Tosca volta aos trilhos e segue viajando

Ninguém aqui é sócio da Light: Huber (esq) e Dorfmeister no escuro para o Tosca brilhar com “Going, going, going”

Interessado em fazer um mestrado em enrolação avançada, favor entrar em contato com Kruder & Dorfmeister, em Viena. É recomendável, porém, esperar o retorno sentado ou, melhor ainda, deitado no sofá. Divindade do balanço lento e enfumaçado, a dupla austríaca de olhinhos fechados conquistou mentes e corpos chapados nos anos 90 com uma penca de sedutores singles, remixes, compilações e até mesmo um EP (o já célebre “G-stoned”, de 93). Tudo ricamente banhado em hip-hop, jazz, drum and bass, house e, acima de tudo, dub. Mas apesar do culto, que atraiu até mesmo Madonna, sempre ela, os dois jamais conseguiram finalizar seu tão esperado álbum de estreia – tão esperado que ninguém de cara limpa imagina que ele seja realmente lançado um dia. Menos mal que em suas trajetórias paralelas, ambos procrastinem menos, principalmente (Richard) Dorfmeister, que acaba de lançar “Going going going”, novo trabalho do Tosca, projeto que mantém com o amigo de infância Rupert Huber.

Apesar do avanço sugerido pelo título, o álbum representa um bem vindo passinho atrás na trajetória da dupla, que estreou com “Opera”, em 97. De lá pra cá, o Tosca surfou, com classe e estilo, na onda do downtempo – ou trip hop ou chillout ou qualquer gênero que significasse música para viajar na horizontal (com um brigadeiro ao lado, claro). Ao seu lado, outros cabeçudos como Kid Loco, Thievery Corporation e Nightmares on Wax (cujo “Smoker´s delight”, de 95, é um marco dessa época, assim como a compilação “The K&D sessions”, dos próprios Kruder & Dorfmeister). A partir da segunda metade dos anos 2000, porém, essa esquadrilha da fumaça começou a escassear dos céus, à medida em que seu som passou a ser diluído e servido como ambientação de cafés, restaurantes, boutiques e hotéis “très chics”.

Sobrevivente dessa era, já sem o frescor de outros tempos, o Tosca chegou a tropeçar nas pernas com o álbum “Outta here”, de 2014. Levados, talvez, por uma crise de meia idade, Dorfmeister e Huber resolveram adentrar o ultrapovoado universo das canções, com a participação de dois vocalistas convidados, deixando de lado os macios grooves instrumentais que sempre foram sua marca registrada. Criticado por todos os lados, “Outta here” acabou indo parar na geladeira, como o prensadão mofado da carreira do grupo.

Resultado de um moonwalk salvador, “Going going going” traz o Tosca fazendo o que sabe melhor: música sem amarras, ondulante e envolvente, não mais inovadora, mas ainda elegantemente construída e refrescante para os sentidos. Vocais, há apenas um, sussurrado, em “Shoulder angel”, que fecha o disco, e outros dois, sampleados e picotados, no blues espacial de “Export import”, que abre os trabalhos, e na cinematográfica “Supersunday”. O resto é festa em câmera lenta e lisergia de baixos BPMs, seja na pinkfloydiana “Hausner”, no contornos houseiros de “Wo-tan” e “Friday” (luxuosa com seu Fender Rhodes e sua linha de baixo cantante), no reggae estilizado de “Tommy” e na lariquenta “Dr.Dings”, versão livre de “A horse with no name”, do America, sucesso radiofônico dos anos 70, perfeita pro mundo do Tosca ficar, novamente, odara.

Cotação: quatro sedinhas.

(Foto de divulgação)