Entre o techno e o clássico, Klavikon não bate na mesma tecla

Um alquimista está chegando. Atração desta noite do festival RC4, dedicado à vanguarda dos sons eruditos, o pianista britânico Klavikon (Leon Michener) não gerou uma pedra filosofal, mas conseguiu criar um elixir da nova vida para seu instrumento. Através de uma série de modificações em sua estrutura – seguindo as lições do mago John Cage, inventor do piano preparado – ele obteve um híbrido cuja sonoridade parece vinda de uma bateria eletrônica. Colocado na prática, como na pulsante faixa “Rorscach”, destaque do seu homônimo álbum de estreia,lançado em 2015 pelo selo britânico Nonclassical, o resultado lembra uma produção de Jeff Mills ou do Underground Resistance. Não por acaso, seu estilo – que vai poder ser conferido a partir de 21h, no Oi Futuro Ipanema, com ingressos já esgotados – tem sido chamado de “piano techno”.

– Precisei de muita persistência para conseguir alcançar esse tipo de resultado – diz ele, que costumava se dividir entre estudos de música clássica no renomado Trinity College, em Londres, e noitadas nos clubes da capital inglesa, até decidir unir esses dois universos em um só instrumento. – Passei um bom tempo tentando resolver essa equação, mas ainda há muito o que fazer para equilibrar todas as variáveis.

Foram cinco anos, para ser mais preciso. Durante esse tempo (2010-2015), Klavikon praticou o método de tentativa e erro para “envenenar” seu piano, até chegar num formato que hoje inclui inúmeros fios, cabos, pedais de efeito e até mesmo bonequinhos de plástico.

– Qualquer um que trabalhe com pianos preparados tem uma dívida com John Cage. Esteticamente, também fui influenciado por Stockhausen e por Xenakis (compositor grego de vanguarda) – afirma ele, também fã de Jean-Michel Jarre, Vangelis e Tangerine Dream.

Ao vivo, Klavikon já participou de vários festivais (como o Primavera Sound e o Reverb). Nada comparável, porém, à apresentação que fez, há dois anos, num ambiente de pista, no clube Xoyo, em Londres, ao lado de Juan Atkins, outro pioneiro do techno de Detroit.

– Foi um privilégio me apresentar na mesma noite em que Juan Atkins, um dos arquitetos do techno. Foi divertido tocar numa pista em vez de num teatro – conta ele, que chama seu piano de “máquina” e deve reproduzir o álbum “Klavikon” na íntegra no show de hoje à noite, que tem também o compositor alemão Gregor Schwellenbach na programação.

Aproveito para uma última pergunta, querendo saber se Klavikon, afinal, gosta de dançar. A resposta vem em tom minimalista.

– Não.

(Foto de divulgação)