Os passinhos temperados do coletivo mexicano NAAFI

Da esquerda para direita: Alberto Bustamante, Paul Marmota e Tomás Davó

Da esquerda para direita: Alberto Bustamante, Paul Marmota e Tomás Davó, integrantes do NAAFI

Não há muro de preconceito que contenha o México. O barulho produzido pelo coletivo NAAFI, por exemplo, tem atravessado as barreiras do som e ficado cada vez mais forte, dentro e fora do país. Formado em 2010 por Tomás Davó, Alberto Bustamante, Lauro Robles e Paul Marmota, o grupo evoluiu a partir da produção de festas “de ritmos periféricos” na Cidade do México para se tornar uma das forças da nova cultura local – latina, conectada e orgulhosa. Com um selo que leva seu nome e a curadoria de inúmeros eventos que embolam música, tecnologia e comportamento, o NAAFI tem dialogado e feito parcerias com grupos semelhantes na Argentina, Uruguai, Espanha e Estados Unidos (pelas mesmas fronteiras que o obtuso Donald Trump sonha fechar). Com o recente anúncio de Davós e Bustamante como atrações do festival Novas Frequências 2016, em dezembro no Rio – eles vão se apresentar como DJs, com os respectivos nomes artísticos de Fausto Bahia e Mexican Jihad – o Brasil marca presença nesse circuito do passinho temperado.

– Confesso que estou um pouco nervoso porque não conheço o público, mas espero que as pessoas estejam dispostas a ouvir coisas diferentes do que estão acostumadas – diz Davó, 29 anos, prestes a começar uma turnê europeia ao lado de Bustamante – Por algum motivo, sinto que México e Brasil não se conhecem tão bem. Mas não quero usar clichês sobre minhas expectativas. Só espero que seja divertido.

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Pode ser que, na superfície, México e Brasil precisem mesmo ir além dos lugares comuns no futebol e na culinária. Mas nas linhas subterrâneas percorridas pelo NAAFI, os dois países têm bailado juntos, como provam as diversas citações ao baile funk (via MCs Zaac e Menor) nos lançamentos do selo do grupo, a maior parte, em formato digital. A recém-lançada coletânea “Pirata 3”, por exemplo, dá uma boa mostra do som que rola nos eventos do N.A.A.F.I: uma caliente mistura de produções inéditas, remixes, edits e versões não autorizadas, à base de cumbia digital, kuduro, trap, reggaeton, dancehall, tribal (um subgênero eletrônico, popular no México) e bass sabor latino.

– Temos amigos no Brasil, como Eduardo Pininga, com quem trocamos música constantemente – explica Davó. – Conheço também o Omulu, com quem estive em Nova York duas vezes. Estamos sempre explorando a internet em busca de novos sons. O selo reflete isso. Estamos trabalhando diariamente nele, buscando expandir nossos limites e de todos os envolvidos. Há estéticas bem diferentes ali, mas de alguma forma elas parecem se completar. É muito legal sentir que você é parte de uma cadeia de produção cultural alternativa que ultrapassa fronteiras.

Exemplo das fronteiras ultrapassadas pelo coletivo – conhecido por festas em lugares inusitados como cantinas e galerias – foi a residência de seis meses no Museu Jumex, dedicado à arte contemporânea. Realizada ano passado na capital mexicana, ela mesclou sets de DJs, mesas redondas e exibições de instrumentos e programas digitais.

– A residência no Jumex foi tão incrível que ainda nem conseguimos dimensionar o seu impacto. Foi muito importante levar nosso som e nossas questões para o ambiente de um museu, frequentado por pessoas que não costumam ir em nossas festas. Em termos de curadoria, foi um passo à frente, foi quando pudemos experimentar mais.

Mesmo com essa trajetória ascendente, o time do NAAFI – apadrinhado por marcas como Red Bull Music Academy e Native Instruments – ainda luta contra o estigma de que apenas o que vem de fora é relevante e “cool” – algo que, brasileiros, conhecemos muito bem.

– No México, o termo para isso é malinchismo. Tem a ver com uma falta de confiança que pode impedir a pessoa de enxergar suas próprias virtudes e brilhar. O que fazemos é incentivar quem está ao nosso redor a ser o mais natural possível – garante Davó, que saúda o Nortec Collective, grupo dos anos 2000, que antecedeu o N.A.A.F.I. na busca por uma sonoridade mexicana contemporânea. – Respeito e admiro o Nortec. Eles abriram muitas portas para quem produz música no México. Mas os tempos são outros e os anseios gerais também.

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PERGUNTA BÔNUS

Você é de Puerto Escondido (point de ondas grandes no México). Já tentou pegar onda alguma vez?

Davó – Sim, claro. Todos meus amigos eram surfistas, bem como alguns parentes. Mas eu sempre fui muito nerd pra surfar. Uso óculos desde pequeno e não conseguia ver as ondas direito. Mas lembro que comprei minha primeira prancha de um brasileiro que foi passar um tempo em Puerto Escondido e depois teve que vender tudo para voltar.

(Fotos de divulgação)