Os tons variados de Joshua Redman, entre Prince e Trump

Os tons variados de Joshua Redman, entre Prince e Trump

Que o saxofonista Joshua Redman é, aos 47 anos, um dos grandes nomes do jazz norte-americano, todos sabemos. Dono de um respeitável currículo, que inclui parcerias com Chick Corea, Charlie Haden, Pat Metheny, Dave Matthews Band, Bill Frisel, Stevie Wonder, The Roots e até mesmo os Rolling Stones, ele é uma das atrações do Bourbon Festival Paraty, que acontece entre os próximos dias 20 e 22, na referida cidade histórica. Redman toca no dia 21 (sábado), ao lado do renomado trio The Bad Plus, com o qual gravou, em 2015, o excelente álbum “The Bad Plus Joshua Redman”.

O que nem todos sabemos é que Redman também é um ativista de causas sociais e fã de Prince e de Stephen Curry, craque do Golden State Warriors, time que compara, de forma bem humorada, ao lendário quarteto de John Coltrane, por jogar por música (figurativamente, figurativamente). Descobri isso tudo – e também seu repúdio à figura de Donald Trump – no bom e variado papo por telefone que tivemos outro dia.

Como tem sido essa relação com o Bad Plus? No seu twitter, você lembra um estudante que disse que o sax num trio de jazz é como a cereja no topo de um sundae. É assim que se sente tocando com o grupo?

Joshua Redman – Essa comparação foi mesmo muito boa, mas não é o suficiente para descrever a sensação de tocar com o Bad Plus. Ali, abro parte da minha individualidade para me unir a uma força singular. O Bad Plus é uma entidade e é uma honra tocar com o grupo.

Como é reproduzir o álbum ao vivo?

Redman – Cada noite é uma história. É quase um ritual. Começamos traçando as bases do que foi gravado em estúdio para depois seguirmos por onde a vibração do momento nos levar. É um estilo de jazz, moderno e vibrante, que gosto muito.

Falando em jazz vibrante, você gostou do álbum “The epic”, de Kamasi Washington? Ele entrou na lista dos melhores lançamentos de 2015 do jornal “The Guardian”, ao lado de “The Bad Plus Joshua Redman”.

Redman – Não ouvi todo o disco ainda, ele é longo (risos), mas do que ouvi gostei muito. Kamasi é um músico muito poderoso e estou ansioso para ver onde ele pode chegar.

Kamasi tem parceiros como Kendrick Lamar e Flying Lotus, artistas de postura progressista. Considera hip-hop e os sons eletrônicos como parte de uma nova fusion para o jazz, como aquela celebrada nos anos 1970, com o rock?

Redman – De certa forma, sim, mas os tempos são outros. A comparação é difícil. Sou fã de Kendrick e acho Flying Lotus um produtor excitante. Existem novos gêneros, novas possibilidades e novos tipos de parcerias para o que ainda entendemos como jazz. Kamasi talvez esteja nos mostrando parte desses novos caminhos.

Mudando de assunto, em breve teremos um novo presidente nos Estados Unidos. E parece que ele vai ter cabelos loiros dessa vez…

Redman – (Interrompe, rindo) É possível, mas, diferente do ditado, não acho que loiros sejam sempre mais divertidos.

Qual a sensação de ver uma pessoa tão retrógrada como Donald Trump ainda na corrida por uma vaga entre os republicanos?

Redman – É uma sensação bem desagradável. O mundo político anda muito estranho, sei que vocês no Brasil também estão passando por turbulências. Mas voltando a Trump, não sei como chegamos a esse ponto. Ele é um manipulador, racista, misógino, e espero que ele fique bem longe da Casa Branca.

Como resumiria os governos de Barack Obama?

Redman – Transformadores. Nos Estados Unidos, não seremos mais os mesmos depois dele. Independentemente dos erros aqui e ali, foi um governo de muitos avanços, principalmente na área de saúde. Acho que, acima de tudo, ele deixa uma imagem de integridade. Isso já é um grande legado.

Você declarou recentemente seu apoio a um comitê internacional de ajuda a refugiados da crise na Síria. O que significa esse gesto?

Redman – Que apesar de não ser um político, posso e devo dar meu apoio, como artista, a causas que acredito, ainda mais em tempos difíceis como os atuais, com toda a crise em torno dos refugiados.

Novamente mudando de assunto, você comparou, brincando, o Golden State Warriors, na temporada 2014/2015, ao quarteto de John Coltrane entre 1964/1965. Por quê?

Redman – Ora, porque eles estão jogando por música, ou melhor, por instinto, com a mesma fluidez e harmonia com que Coltrane e seu quarteto tocavam. E Stephen Curry é um monstro. Sou fã declarado.

Você era fã também de Prince, tanto que gravou uma de suas músicas, “How come U dont call me anymore´” no álbum “Timeless tales”, de 1998. Como reagiu à notícia da morte dele?

Redman – Foi um baque. Tinha visto Prince recentemente, em Oakland, nesse concerto de voz e piano que vinha fazendo, e ele foi genial. Parecia no auge, sem sinal algum de doença ou complicações. Para mim, Prince foi o maior artista pop de todos os tempos. Simplesmente isso.

(Foto de divulgação/Jay Blakesberg)